A favelização de um país

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | A favelização de um país, n. 230, s/d.

 

 

O Brasil hoje seria um país estável, convivendo com uma economia em crescimento, juros e inflação em queda, empresas investindo, empregando mais e aumentando a produção. Portanto, com uma economia que aumenta a renda das famílias e melhora suas vidas, num clima de otimismo há muito ausente. Este é pelo menos o discurso oficial, repetido, requentado, rearrumado e repisado por tudo que é ministro, político do governo, marqueteiro oficial e oficioso, analista econômico com trânsito nas altas rodas e desavisados de toda ordem. O diabo é a realidade. Nem tanto da economia, porque esta pode até crescer com estabilidade monetária e apresentar indicadores que pareçam novas maravilhas do mundo. Fora de seu nexo social, a economia é uma abstração que pode alegrar exercícios pirotécnicos de comentaristas bem pagos, mas em algum momento a economia real vai entrar em conflito com a situação social.

Esse é o caso da economia brasileira, que parece bem para os chapas brancas que se abstraem da realidade social. O censo do IBGE nos diz que, nos últimos dez anos, a taxa de crescimento das periferias urbanas das oito maiores regiões metropolitanas do país (42 milhões de habitantes) foi de 30%, enquanto a dos bairros mais ricos foi de 5%. Ou que, há vinte anos, a população da periferia das 49 maiores cidades brasileiras (80 milhões de habitantes) era um terço do total e agora é quase a metade, devendo ser maioria nos próximos cinco anos. Ou, ainda, que, de 1996 para cá, a renda per capita das cidades médias brasileiras aumentou 3%, enquanto na periferias das grandes cidades caiu 3%. Em outras palavras, o nexo positivo que deveria existir entre o crescimento da economia e a situação social simplesmente se rompeu, ou está para se romper.

Quem não entendeu direito porque o PT e vários partidos de esquerda cresceram nas últimas eleições municipais talvez devesse se debruçar melhor sobre esses indicadores sociais que desmentem, de uma lapada só, toda a publicidade construída pelo governo FHC em torno do desenvolvimento social promovido por ele. O que houve, nos últimos 20 anos e, mais particularmente, nos anos imperiais de FHC, foi uma involução social, cuja manifestação mais trágica é o índice de 150 homicídios por 100 mil habitantes.

Pobreza, inchaço e violência, esta é a realidade da favelização do país, que cerca as áreas ricas. As elites, por sua vez, protegem-se atrás de cercas e muros, que trazem a época feudal para o século XXI. Alguns prefeitos, como César Maia, pretendem cercar as favelas para evitar seu crescimento. Outros advogam mais polícia, velha panacéia que nada resolveu. Samaritanos socorrem os mais pobres, por todo o país, mas a pobreza cresce mais rápido do que a bondade. Especialistas urbanos reconhecem que o alarma de uma bomba prestes a explodir está soando nas periferias.

Mais do que nunca, o país precisa inverter suas prioridades. A economia tem que recriar seu nexo com o desenvolvimento social, só possível se, à pobreza das periferias, forem dadas condições de trabalho e desenvolvimento. A aliança conservadora que domina o país mostrou-se incapaz de cumprir esse papel. Os partidos de esquerda, ao contrário, através dos governos que elegeram, podem mostrar que é possível resistir à destruição capitalista, criar uma nova tendência de crescimento, democrática e popular, e forjar uma força social que, pela primeira vez na história do Brasil, mude realmente o quadro trágico de favelização.

Você pode gostar...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *