A espiral dos mercados

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | A espiral dos mercados, n. 397, 14 mai. 2004.

 

 

Na última semana, diante da possível elevação dos juros americanos, e da pretensa falta de controle do governo sobre sua base no Congresso, os mercados – esses entes fantasmagóricos, que ninguém vê, mas todos sentem na própria carne suas estripulias financeiras – ficaram frenéticos. As bolsas caíram, o câmbio oscilou para cima, o risco-Brasil voltou a ultrapassar os 700 pontos e nossas reservas internacionais diminuíram.

O quase certo aumento das taxas de juros nos Estados Unidos, algo previsto e esperado há muito, tornará mais caro o crédito externo, deverá reduzir as cotações internacionais das commodities, já fez subir o preço do petróleo, e causará diversas outras perturbações econômicas e financeiras na economia mundial. No Brasil, terá impacto sobre a balança comercial, a cotação do dólar, as taxas básicas de juros, as previsões de crescimento etc. etc.

Era e é previsível, portanto, que dificilmente conseguiremos manter os saldos comerciais nos elevados níveis atuais e estável a cotação do real frente ao dólar. O que, por sua vez, poderá empurrar a taxa Selic para cima, ao invés de continuar seu movimento de queda. Em tais condições, se antes as previsões de crescimento econômico já eram modestas, num quadro como esse poderão tornar-se ainda mais pessimistas.

Como sempre, antecipando-se ao futuro, os mercados entraram num clima de alto nervosismo, com o claro objetivo de mandar recados. Para eles, a credibilidade do governo Lula esvaiu-se. Este não teria mais condições de cortar fundo no Orçamento, nem elevar os juros básicos e os impostos. Pretendem, então, que o governo demonstre cabalmente sua capacidade de enfrentar os movimentos sociais, em especial o MST, desvincule o salário-mínimo da Previdência, outorgue a autonomia do Banco Central e ofereça maiores vantagens e garantias aos investidores.

Já não se satisfazem com a idéia de que os fundamentos da economia estão sólidos e que todos os contratos e compromissos serão rigorosamente cumpridos. Querem mais, para dar novo aval de credibilidade ao governo Lula. E pouco lhes importa que esse “mais” represente maior desemprego, queda nos rendimentos e no poder aquisitivo da população e maiores problemas sociais.

E também pouco lhes importa que eles próprios não cumpram os contratos, mudando as regras e o rating de credibilidade e, portanto, emitindo novas exigências e novos recados a cada turbulência internacional. Afinal, essa é sua espiral histórica e só acredita em suas promessas quem quer.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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