A escolhida

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | A escolhida, n. 274, 08 dez. 2001.

 

 

A governadora Roseana Sarney foi mimoseada com um prêmio de revelação do ano pelos marqueteiros do país. De quase obscura governadora do que talvez seja hoje o mais atrasado estado do Brasil, ela foi guindada a cerca de 20% das preferências eleitorais para presidente. Desse modo, não só introduziu evidentes embaraços nos planos do PSDB, como transformou o que parecia ser um simples exercício de cacifagem política numa promissora perspectiva de conquista da hegemonia política dentro do bloco conservador.

Tanto os marqueteiros quanto grande parte dos analistas políticos têm se esforçado em demonstrar que o fenômeno Roseana é um caso exemplar de sucesso do marketing político, semelhante ao de Collor em 1989. Com base no mesmo critério, setores da esquerda afiançam que o crescimento de Roseana não passaria de uma bolha de sabão, que se desmanchará no ar logo que o eleitorado conheça a realidade maranhense.

A vingarem esses argumentos, corremos o risco de cometer o mesmo erro de 1989, quando a esquerda subestimou Collor, também por achá-lo um produto do marketing político e supor que o conhecimento da situação de Alagoas pelo eleitorado o jogaria na lona. Em primeiro lugar, porque Collor, como Roseana, não era apenas um produto do marketing, mas das circunstâncias sociais e políticas da época. E produto, ainda, de uma estratégia política bem definida.

O fenômeno Roseana também possui componentes que explicam sua emergência e vão além do marketing e da situação maranhense. A parte do empresariado que conta no Brasil descobriu, com ela, que pode ter um candidato(a) para enfrentar Lula. Embora ela faça parte da aliança que sustenta FHC, sua imagem não está indissoluvelmente ligada ao governo, como Serra. Embora ela seja conservadora, pode apresentar-se com uma suposta tradição de esquerda, ao contrário de Tasso. E ninguém pode negar a ela a qualidade de mulher combativa e autônoma em relação ao pai José Sarney.

Mesmo que os caciques do PFL não tivessem inicialmente clara a estratégia de construção de uma candidatura própria, e que o marketing tenha ajudado a lançar Roseana no cenário nacional, isso só foi possível porque ela reúne algumas condições básicas para tornar-se a candidata das elites, em especial sua tintura de esquerda. Desse modo, agora já não se trata de um fenômeno de marketing, mas da construção de uma candidatura presidencial em condições de disputar com Lula, inclusive nas críticas e ataques às políticas de FHC/Malan e nas propostas de reformas de cunho social.

Pode até ocorrer que, na briga de foice em quarto escuro em que está se transformando a disputa pela cabeça de chapa no bloco conservador, Roseana saia chamuscada e perca pontos. Mas seria um erro infantil supor que ela está aí somente para barganhar o lugar de vice e garantir maior espaço para o PFL. Ela já é a escolhida do grande empresariado e subestimar isso pode ser um erro fatal.

Você pode gostar...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *