A doença infantil do esquerdismo

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | A doença infantil do esquerdismo, n. 505, 24 jun. 2006.

 

 

A doença infantil do esquerdismo é o título de um célebre folheto do líder da revolução russa de 1917, Lênin. Nele, Lênin discute com aqueles comunistas que desejavam impor aos trabalhadores e aos camponeses russos suas palavras de ordem e suas ações, considerando que seu próprio exemplo e sua ação “acordariam” as massas populares e as colocariam em movimento. E concluía que tal doença voluntarista, ao invés de fazer o povo avançar, abria flancos para que o povo fosse golpeado pela ação da direita política.

Lênin argumentava que, para as massas populares se colocarem em movimento, era preciso que elas já não quisessem viver como até então. E, para que tal movimento se transformasse em revolução, era necessário, além disso, que as classes dominantes já não pudessem dominar como até então.

Em outras palavras, para que as forças revolucionárias não fossem acometidas da doença infantil do esquerdismo, elas precisavam estar antenadas com essas tendências reais na base e na superestrutura da sociedade, e atuar em conformidade com elas. Era por isso que, do ponto de vista da atividade prática das forças revolucionárias russas, ele distinguia os períodos de propaganda, dos períodos de agitação e dos períodos de ação.

Na história brasileira, infelizmente, são muitas as erupções da doença infantil do esquerdismo nas forças que se acham revolucionárias, especialmente se tomarmos como referência o século 20. Em grande parte dos casos, elas começam achando que as massas populares já não suportam viver sob o regime vigente, e que não se movem porque os antigos dirigentes as impedem de desencadear suas lutas. Em conseqüência, rompem com os “reformistas” e “traidores”, e fazem chamamentos à luta revolucionária.

Num segundo momento, como as massas não se moveram, essas forças reconhecem de malgrado a inércia popular, culpam os meios de comunicação e as classes dominantes por não debater o que pensam interessar ao povo (como se as classes dominantes não devessem fazer justamente isso) e procuram argumentos para justificar sua persistência na doença infantil. Com isso, não fazem a propaganda que deveriam fazer, promovem agitações despropositadas e procuram realizar ações que pouco têm a ver com o amadurecimento das condições reais.

Pior. Em alguns casos, deliram que o fim do império está próximo, e estimulam ações que, por mais razões de indignação que contenham, do ponto de vista da luta concreta, não contribuem para a educação revolucionária do povo e dão motivos para os golpes da direita.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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