A divisão anunciada

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | A divisão anunciada; 06 mai. 1998.

 

 

É a primeira vez, em todos os anos de existência do PT, que vários de seus dirigentes explicitam que o partido está dividido em dois, dando isto como fato consumado, contra o qual nada há a fazer. Dessa forma, não será surpresa  se aqueles que concordam com esta interpretação, supondo abrir as comportas para a formação de uma frente de centro-esquerda em torno de Lula, se empenhem em transformar a hipótese em realidade, aprovando a intervenção no PT-Rio.

A consumação de um racha no PT, nas condições presentes, representará uma imensa perda de massa crítica. Cada lado tem cerca de 50% do partido, ambos têm representantes nos parlamentos e governos estaduais e municipais e possuem expressividade no movimento social. Juntos, conseguem a chamada sinergia, que lhes permite uma força superior à simples soma de suas partes. Separados, perdem esta potencialidade, ainda que não ocorra uma atomização ainda maior que a divisão ao meio.

Isto mudará completamente o peso político do partido. Mesmo supondo-se que Lula e a atual maioria nacional fiquem com a sigla PT, este dificilmente terá condições de manter-se como pólo aglutinador das demais forças de esquerda. PSB e PDT, em lugar de coligar-se tendo Lula na cabeça, vão exigir outro tipo de aliança, com outro candidato de “perfil mais amplo”. Será a almejada aliança, mais para o centro do que para a esquerda, na qual o novo PT será um coadjuvante menor.

Além disso, as massas de deserdados, que crescem assustadoramente no Brasil de FHC, e viam no PT a referência político-institucional de canalização de seu descontentamento, de suas reivindicações e de sua ira, deixarão de enxergá-la. Se já era difícil ao PT romper a barreira das miragens veiculadas pela mídia dominante, para as metades-PT isto poderá tornar-se quase impossível. Sem massa crítica, sem sinergia, sem peso político suficiente, nenhuma delas terá condições de apresentar-se com a visibilidade necessária para atrair os grandes contingentes populares.

Assim, à esquerda e à direita do PT, muitas lideranças podem até pensar que o racha as deixará livres para fazerem o que bem entenderem. Mas o horizonte criado pelas conseqüências da divisão deve impor-lhes muito mais limites do que as atuais disputas internas. Quem quiser, que pague para ver.

Você pode gostar...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *