A disputa política

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | A disputa política, n. 495, 15 abr. 2006.

 

 

Em comentário anterior, afirmamos que a experiência ludista do passado serviu como ensinamento histórico. Ela mostrou que os trabalhadores e as classes populares não podem expressar sua indignação contra a exploração desenfreada e o uso destrutivo dos meios de produção utilizando qualquer forma de luta ao seu alcance. A sugestão de que atos dessa natureza levam a sociedade a refletir não se mostrou verdadeira.

Esse ensinamento é adaptável a qualquer circunstância da luta de classes. A burguesia possui meios materiais, culturais, ideológicos e políticos para contrabalançar qualquer explicação sobre os motivos que geraram tais atos, para aprofundar a confusão na sociedade e dividi-la. Em geral, ela também consegue dividir o movimento popular, isolando e golpeando não apenas o setor que realizou as ações, mas todo o movimento.

Ao constatar essas conseqüências, alguns segmentos da esquerda procuram culpar a mídia burguesa e a própria burguesia pelo entendimento incorreto do gesto. Parece não se darem conta de que se trata de uma luta, uma guerra, entre dois inimigos, em que, a cada um, cabe aproveitar as fraquezas e erros do outro para conquistar a vitória. Por mais pura que seja a ingenuidade de achar que a burguesia e seus instrumentos de hegemonia e dominação devem ser simpáticos com a causa e com os atos dos trabalhadores e do povo, tal ingenuidade é danosa à educação ideológica e política popular.

À burguesia cabe atacar e derrotar as camadas populares, mesmo que, às vezes, alguns de seus setores se aliem eventualmente à luta popular, como a história também tem mostrado. Às camadas populares cabe atacar e derrotar a burguesia, mesmo que alguns de seus setores também se aliem eventualmente à luta daquela classe contra seus companheiros. Tudo isso torna tal luta complexa, fazendo com que os maiores êxitos em geral surjam do aproveitamento dos erros do adversário.

Entre tais erros, um dos mais comuns relaciona-se à distinção dos inimigos e, dentre estes, do inimigo principal. Ao atacar os meios de produção, os ludistas, antigos e modernos, não distinguem seus inimigos e, no caso específico da Aracruz, não distinguem seus inimigos principais. E, ao empregar formas de luta ultrapassadas pela história, causam um enorme dano ao movimento dos sem-terra e dos camponeses.

Algo idêntico ocorre com aqueles setores da esquerda que decidiram que Lula e o PT são, não apenas inimigos, mas os inimigos principais. Indignam-se com a imprensa por criar o que chamam de falsa polarização, atacam o voto obrigatório e a necessidade de escolher candidatos indicados pelos partidos, e se lamentam de que as camadas populares tendam a votar em Lula e reelegê-lo. Em outras palavras, começam a ter diante de si o cenário de que, mesmo lançando candidatos próprios no primeiro turno, tenham que escolher entre Lula e Alckmin, ou Lula e Serra, num segundo turno. Talvez se decidam pelo voto nulo, esquecendo-se que tal arma, ou forma de luta, só é valida e educativa quando se tem uma correlação de forças em que é possível desmascarar o inimigo.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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