A disputa pela hegemonia

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | A disputa pela hegemonia, n. 323, 30 nov. 2002.

 

 

Lula nem tomou posse, e a disputa pela hegemonia já conquistou a dimensão de uma guerra ideológica, cultural e política. Basta olhar os jornais, revistas e noticiários televisivos para ver os chamados “formadores de opinião” a todo vapor para definir o que o novo presidente deve fazer ou não fazer. E, se não bastasse, basta ouvir os melancólicos e pretensiosos discursos e entrevistas do ainda presidente FHC.

O lado de lá já está impondo ao lado de cá não só a tarefa de levar à prática as mudanças, mas também de manter as mentes e os corações do povo convencidos de que tais mudanças são o melhor para ele e para o país. Já antes do governo popular poder fazer o que deve ser feito, o lado de lá está impondo às forças populares a necessidade de travar a disputa pela hegemonia ideológica e cultural.

Nessa disputa, desempenha papel essencial o desmascaramento do neoliberalismo. Não é possível deixar de esclarecer o que foi, em realidade, o governo FHC como expressão acabada dessa ideologia e política. Esse acerto de contas terá que colocar a nu a enganação praticada durante os recentes oito anos e o processo destrutivo a que o país e o povo foram submetidos. Se isso não for feito, corre-se o risco de ver essa corrente levantar-se novamente ou transmutar-se em alguma nova via enganadora.

Para evitar isso, os intelectuais deveriam ser chamados a realizar uma investigação ampla e profunda do país herdado do governo neoliberal. Deveriam investigá-lo em seus aspectos produtivo, financeiro, científico, tecnológico, educacional, cultural e militar. E deveriam, sobretudo, olhar para baixo e conhecer em detalhe a vida cotidiana das milhões de pessoas que só costumam enxergar quando eventualmente lêem o noticiário policial. Uma investigação desse tipo, sem idéias preconcebidas, seria fundamental para desnudar o neoliberalismo.

Porém, tão ou mais importante pode ser a ajuda que essa investigação prestará à própria intelectualidade brasileira. Pode fazê-la acertar as contas com sua capitulação diante do neoliberalismo. Nossa intelectualidade não pode culpar sua desqualificação pelo governo neoliberal tucano, ou sua não mobilização pela oposição democrático e popular, ou seu recolhimento à universidade, por sua inação e sua pouca produção teórica. Ela, ou pelo menos parte substancial dela, precisa reconhecer seus próprios erros elitistas, suas ilusões na modernidade neoliberal, para capacitar-se a dar uma contribuição importante ao projeto democrático e popular.

Sem tal reconhecimento, como ela vai entender o significado dos valores de luta, solidariedade, honestidade, persistência e resistência do povo brasileiro nos anos recentes? Como vai se despir dos preconceitos e assimilar os valores populares como aqueles que realmente podem mudar os destinos do Brasil? Por isso, para travar com sucesso a disputa pela hegemonia ideológica, o grande mutirão intelectual e cultural, proposto por Emir Sader, talvez tenha que se voltar primeiro para uma investigação ampla e profunda de nosso próprio povo e país. Sem isso, a produção teórica decorrente dos debates e seminários corre o risco de não corresponder à realidade. E levar essa mesma intelectualidade a novos erros de avaliação.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político

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