A direita e suas facetas

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | A direita e suas facetas, n. 499, 13 mai. 2006.

 

 

A crise com a Bolívia fez a direita, seja aquela que é explícita, seja a que se mantinha encoberta, colocar a cabeça de fora e mostrar suas várias facetas, justamente naquilo que parecia unanimidade nacional: a política externa do governo Lula.

Os velhos e contumazes colaboracionistas dos interesses norte-americanos, como os pefelistas, que jamais bradaram contra a interferência do irmão do Norte nos assuntos brasileiros, aparentemente tornaram-se nacionalistas ferrenhos. Passaram a exigir respostas duras, embora não explicitem o que isso quer dizer. Mas é quase certo que desejam uma aventura militar contra o país vizinho.

Muitos dos nacionalistas de velha cepa mostraram seu nacionalismo de grande potência. Jamais enfrentaram com firmeza o entreguismo, mas sempre procuram parecer irredutíveis na defesa dos interesses e da soberania nacionais. Agora, incapazes de aceitar e respeitar a soberania e a autodeterminação dos outros povos, também querem medidas duras contra a Bolívia.

Tucanos emplumados, para os quais a pecha de xenofobia nacionalista não cairia bem, preferem denunciar a pretensa tibieza do governo Lula diante da quebra de contratos pelo governo Morales. E, como os demais, também exigem dureza no trato com os bolivianos. Como todos acima, pseudo-socialistas do PPS, ex-embaixadores, especialistas, jornalistas, acadêmicos e outros profissionais, todos eles aparentemente apartidários, repetem a mesma ladainha de tibieza e motivações ideológicas.

Num coro surpreendentemente afinado, como há muito não se via, tornaram-se todos pretensos defensores da Petrobrás e dos interesses nacionais. Querem que esqueçamos os esforços que realizaram para privatizar a estatal e entregá-la às corporações transnacionais, como fizeram com a maior parte do patrimônio nacional desde o governo Collor.

Assim, no primeiro teste da política externa do governo Lula, a direita rompeu sua falsa concordância com ela. Mostrou sua dúplice natureza, de vassala das potências imperiais e, ao mesmo tempo, de pretendente a um hegemonismo regional sobre os países menores da América do Sul. Enquanto isso, a ultra-esquerda, que toma Lula como o inimigo principal, está numa sinuca de bico. Quer solidarizar-se com os bolivianos, sem reconhecer a defesa do direito à soberania e à autodeterminação, realizada com firmeza pelo governo.

Como em quase tudo, a polarização vai se impondo. O respeito à soberania e à autodeterminação, inclusive à própria decisão brasileira de manter seu solo e suas riquezas minerais nacionalizadas, e ter uma política econômica independente, é a base sobre a qual se assenta qualquer negociação a respeito dos investimentos e das propriedades brasileiras instaladas em solo boliviano.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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