A crise na China e aqui

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | A crise na China e aqui, n. 395, 01 mai. 2004.

 

 

Há uma explosão de sinólogos no Brasil, afirmando que a China vive a “mistura explosiva” de “inflação contida na base de subsídio de estatais, superaquecimento econômico, bancos quebrados, elevação dos problemas sociais e governo ditatorial”. Como diz um desses sábios: “isso não pode dar certo. Em algum momento, a China vai entrar em crise, pode demorar, mas vai”.

Tirando o fato de que eles não acrescentam nada de novo aos comentários expendidos sobre a China e suas perspectivas há 25 anos atrás, quando ela iniciou suas reformas, não deixa de ser verdadeiro que ela, como todos os demais países, em algum momento “vai entrar em crise”. Aliás, entrou em crise em 1989, quando 9 entre 10 analistas ocidentais apostaram que não sairia dela.

Todo processo econômico gera crises. A arte da política não consiste apenas em conseguir evitá-las, mas em saber encontrar saída para elas, de modo que o desenvolvimento (aqui entendido em suas dimensões econômica, social, ambiental e política) não tenha descontinuidade. Nesse sentido, os sinólogos deveriam voltar sua atenção para a capacidade chinesa de resolver suas crises, conforme mostra sua história, seu desenvolvimento recente e sua conjuntura atual. Justamente o que tem nos faltado.

Aqui, temos inflação contida na base de compressão do poder aquisitivo dos trabalhadores e das classes médias, crescimento econômico pífio em virtude das baixas taxas de investimento, desemprego em aumento, bancos muito bem obrigado pelos juros praticados e explosão dos problemas sociais. E, embora não tenhamos um governo ditatorial, também poderíamos dizer, como o acaciano sábio, que isso não pode dar certo e que o Brasil vai entrar em crise (na verdade, já está!).

O paradoxo reside em que o Brasil está crescendo seus braços e encolhendo seu cérebro, tronco e pernas, como se estivesse atacado de um tipo estranho de elefantíase. E muitos economistas e financistas acham que o processo é esse mesmo, resistindo à sua inversão para equilibrar o crescimento. Não querem ouvir falar no aumento das taxas de investimento em infra-estrutura e na produção física, nem em retirar o entulho que impede a expansão dos setores da economia que vivem imprensados na informalidade.

Se o Brasil não souber fazer isso agora, daqui a 25 anos a China estará discutindo se deve crescer a 6% ou 7% ao ano, alguns ainda dirão que isso não dará certo e desembocará em crise, mas nós, provavelmente, estaremos sem cérebro e teremos quebrado pernas e costelas em virtude do peso dos braços desmesuradamente crescidos.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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