A conta do embalo

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | A conta do embalo; n. 112, 10 out. 1998.

 

 

Os setores conscientes estão meio atônitos com a vitória de FHC no primeiro turno. Como um povo, metido na encalacrada de uma crise sem precedentes, criada pela subordinação do próprio FHC aos interesses das corporações internacionais, decide reentregar o governo ao mesmo homem responsável pela crise?

Para alguns, isso tem algo de patológico, se levarmos em conta que só 20% dos que votaram em FHC se identificam com sua política. Os outros 80%, descontentes, votaram nele por razões que vão de uma declarada falta de opções, ao rasante argumento de que quem pariu a crise que a embale.

Porém, um exame frio dos resultados mostrará uma lógica previsível, cujo desenvolvimento deve ser buscado na capitulação oposicionista à pauta das políticas e reformas neoliberais, após a campanha do impeachment de Collor.

A oposição não se opôs com firmeza à política do governo, com medo de isolar-se. Não se isolou, mas confundiu-se com a situação e deixou de ser o referencial seguro para os insatisfeitos. A campanha eleitoral de Lula foi light até a crise explodir. Aí, quis vestir sua antiga farda de combate, mas já não cabia nela. Ainda cresceu em alguns estados e na disputa parlamentar, mas não teve gás suficiente para levar as eleições presidenciais ao segundo turno.

Já o sistema de poder a quem FHC serve e que o sustenta não vacilou sequer um minuto. A mídia, monopolizada, sempre defendeu o presidente e, depois, o candidato, enquanto desqualificava as críticas e desgastava a oposição, associando-a ao caos. E a finança internacional coroou suas ações ao anunciar, um dia antes das eleições, uma ajuda de 24 bilhões de dólares ao Brasil. Uma orquestra afinada não se sairia melhor.

O que esperar agora? FHC anunciou dureza e ninguém poderá dizer que não avisou. Não vai desvalorizar o câmbio, não vai baixar os juros, não vai controlar a movimentação de capitais. O empréstimo jumbo só serve para manter as reservas e garantir, com o apoio do FMI e banqueiros internacionais, a credibilidade para continuar captando recursos que financiem as importações e garantam a rolagem das dívidas. Em outras palavras, a política e o autoritarismo não mudam.

O que muda é o grau de arrocho sobre os marginalizados, os trabalhadores, as classes médias e setores do empresariado. O ajuste fiscal, capaz de arrancar 20 bilhões de dólares para o pagamento das contas externas, será um aperto ainda maior a esses setores. Mais imposto, mais corte na educação, na saúde, na moradia, mais… Tudo levando àquele círculo perverso de mais recessão, mais desemprego, mais miséria, mais violência, mais…

Ou seja, ao embalo que o povo sabe que só ele paga. Talvez para se encher de razão quando quiser acertar as contas. É útil, então, que a oposição leve em conta tal leitura e aproveite seu crescimento eleitoral para resistir com convicção aos planos anti-populares de FHC reeleito. E, se pretende voltar a ser o referencial dos prejudicados e dos descontentes, é bom começar pelas disputas de segundo turno nos estados, que não podem cair na mesmice das campanhas mornas do início do primeiro.

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