A briga nas elites

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | A briga nas elites, n. 163, 11 set. 1999.

 

 

A reunião dos chefes dos poderes da República para definir o teto salarial; o anúncio do porta-voz do governo de que nada havia sido acertado; a reação indignada do presidente do Judiciário; a decisão do STF dando ganho de causa aos inativos; a acusação de ACM de que os juizes supremos quiseram se vingar da recusa governamental; o pânico do governo (o que pensarão os credores?), levando-o a inundar a imprensa com dados falsos sobre o rombo da previdência; a convocação do ministério para providenciar novas formas de tungar o povo com impostos e cortes de benefícios; a informação de que as medidas de cortes seriam anunciadas ao fim da reunião ministerial e, à falta de tais medidas, o bate-boca do ministro Malan com os jornalistas presentes  –  todos são sinais de que a divisão no seio das elites dominantes já não pode ser camuflada.

Claro que a divisão se dá em torno de privilégios de grupo. Em épocas de vacas magras, em que a legitimidade de arrancar o couro do povão depende de alguns setores das elites também pagarem uma parte do prejuizo, a briga em torno de quem vai pagar mais pode virar guerra aberta. Para manter os subsídios às grandes corporações multinacionais e garantir o pagamento dos juros aos banqueiros internacionais e nacionais, além de tungar inativos, arrochar aposentados, comprimir o funcionalismo e matar de fome os trabalhadores de salário mínimo, FHC precisava apertar alguns salários elevados, como os dos altos escalões do três poderes.

Só que os juizes sabem que o teto salarial dos altos escalões do executivo e do legislativo é uma ficção para enganar o povão. É um teto côncavo sobre o qual chovem rendas das mais diferentes fontes, a começar pelas aposentadorias do próprio presidente da República. Por outro lado, por que não cobrar parte substancial dos quase 50 bilhões que grandes empresas devem à previdência? Ou parar de financiar grupos estrangeiros na compra de estatais brasileiras? Ou tomar medidas para evitar a sangria de mais de 50 bilhões de dólares a serem pagos em juros da dívida? Diante disso, os 2,5 bilhões a serem arrancados dos inativos são uma ninharia.

Algumas elites já não estão topando participar do rateio para o pagamento dos prejuizos da política de FHC e parecem dispostas a ir para a briga. Como a sabedoria popular ensina que, quando o inimigo briga entre si, é preciso atiçá-la ainda mais e bater com mais força no lado pior, a movimentação dos metalúrgicos, sem-terra e outras camadas populares contra o sugamento de seu suor e sangue talvez ajude as forças populares a encontrar seu caminho.

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