A batalha do ajuste

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | A batalha do ajuste, n. 116, 07 nov. 1998.

 

 

Após acertar os detalhes do ajuste monetário com o FMI, e preparar o embrulho cuja conta a sociedade brasileira deve pagar, com a exceção dos privilegiados de sempre, o governo editou suas MPs e agora pressiona o Congresso para aprovar a reforma previdenciária e outras medidas de urgência.

O problema do governo não reside na aprovação em si das medidas. Ele não precisa disso para operar os ajustes reais, já que usa e abusa do instrumento ditatorial das MPs. O que ele precisa é da coonestação do Congresso, legitimando o ajuste absurdo com o que ainda sobra de lealdade na bancada governista. Com isso, verifica quanto terá que gastar para garantir a aprovação de suas medidas, mesmo que expurgadas dos bodes, destinados à imolação para conservar o essencial, e sinaliza credibilidade para o sistema financeiro internacional.

Ele precisa, além disso, testar a disposição da esquerda, primeiro frente aos acenos de diálogo e cooperação, depois ante às ameaças e chantagens patrióticas e pelo bem do Brasil, que costuma exigir dos outros, sem praticar. Tem necessidade de saber, para os tempos ainda mais difíceis e instáveis que se aproximam, se as esperanças na eleição de uma maioria moderada na bancada esquerdista se concretizarão, facilitando a aprovação das medidas de ajuste.

Afinal, a leitura inicial das urnas tornou-se bastante embaralhada. A derrota de Cristóvam Buarque, a vitória de Olívio Dutra, o rápido aprofundamento da crise e do desastre econômicos, as condicionalidades do FMI e a evidente insensatez do embrulho de ajuste, ocorridos após o primeiro turno, modificaram a conjuntura, empurrando a esquerda toda para uma oposição mais resoluta.

A atual batalha de ajuste não é, pois, uma batalha qualquer. FHC pode não querer pagar alto e caro à sua base de sustentação. Além disso, por algum desses cochilos da vaidade, que acometem uns e outros indistintamente, pode ser derrotado numa das votações consideradas fundamentais. Neste caso, o mandato que pretende iniciar em janeiro de 1998, pode acabar antes de começar. Se não institucionalmente, pelo menos politicamente.

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