A bandeira das mudanças

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | A bandeira das mudanças, n. 483, 20 jan. 2006.

 

 

A bandeira das mudanças tem jogado um papel importante nas disputas eleitorais brasileiras, em especial nas disputas presidenciais, tanto nos intervalos democráticos anteriores a 1964, quanto no período pós-ditatorial.

Em 1989, a primeira eleição presidencial direta após o regime militar, foram ao segundo turno os candidatos que defenderam com mais ênfase mudanças na sociedade brasileira. Em 1994, FHC foi eleito com base nas mudanças promovidas na moeda e nos pretensos benefícios que elas promoveriam. Em 1998, FHC mudou o câmbio e foi salvo da derrota tanto pela mega-operação de salvamento articulada pelo sistema financeiro internacional, quanto pelas vacilações da campanha petista em empunhar aquela bandeira.

Em 2002, Lula foi eleito na expectativa de mudanças na sociedade brasileira, seja das grandes camadas populares, seja de setores da própria burguesia. Pode ser que parte dessa burguesia, que estava em pânico ante a possibilidade da vitória petista, tenha entendido o recado da Carta aos Brasileiros e se acalmado um pouco. Mas isso não desempenhou qualquer influência séria sobre os resultados eleitorais. A maioria do povão, que votou em Lula e garantiu a sua vitória, sequer teve conhecimento da tal carta e, até o fim, continuou acreditando que as mudanças viriam.

Em 2006, é difícil supor que será diferente. Portanto, para o PT e para Lula, que perderam aquela bandeira para as dificuldades de efetivação das mudanças esperadas, e para a crise em que foram envolvidos pela direção do Campo Majoritário, em teoria a questão reside em retomar com firmeza tal bandeira. Para a direita, que está assanhada com a perspectiva de retomar o governo federal, a dificuldade consiste em que ela não pode empunhar a bandeira das mudanças, pretendendo retroceder a FHC. E para a ultra-esquerda, que toma Lula e o PT como inimigos principais, só resta o pêndulo entre mudanças que ainda não estão maduras no imaginário e na prática da luta popular, alianças de fato com a direita ou o ponto morto central do voto nulo.

Olhando em perspectiva, o delineamento de um quadro eleitoral favorável à esquerda como um todo vai depender da capacidade do PT e do governo Lula de retomarem a bandeira das mudanças. Embora os aspectos positivos de seu governo possam fazer algum contraponto aos ataques da direita e às desqualificações da ultra-esquerda, não é isso que vai determinar qualquer guinada no atual humor descontente das camadas médias e de setores populares consideráveis do eleitorado. Será preciso muito mais.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

 

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