50 anos da revolução chinesa (4): um mercado de massa

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | 50 anos da revolução chinesa (4): um mercado de massa, n. 1666, 30 out. 1999.

 

 

Ao ser proclamada a República Popular, em 1949, a China possuia cerca de 540 milhões de habitantes. Destes, 15 milhões eram trabalhadores urbanos e a maioria eram camponeses, de renda extremamente baixa, assolados pelas constantes epidemias de fome relatadas pela história.

A democratização da propriedade agrária, que beneficiou 350 milhões de camponeses, e da propriedade urbana, com a formação de empresas coletivas e estatais, assim como o crescimento da produção do país, permitiram a elevação da renda da população e, também, um rápido crescimento desta.

Tomando como base os anos de 1952 e 1957, do primeiro plano quinqüenal, o consumo bruto per capita de toda a população se elevou 22,9%, algo em torno de 7% ao ano. Entre 1957 e 1978, período marcado pelo aumento do cooperativismo rural e pelas experiências do Grande Salto e da Revolução Cultural, aquele consumo bruto se elevou 34%, uma média de 2,4% ao ano.

Paralelamente, em 1969 a China já possuia 800 milhões de habitantes. Em 1982 havia ultrapassado um bilhão e, em 1998, alcançou 1 bilhão e 236 milhões, uns 300 milhões a menos do que teria se não houvesse aplicado, desde os anos 70, uma política de controle da natalidade. Assim, apesar dos erros de seu processo de desenvolvimento e do acréscimo médio de 14 milhões de pessoas por ano, a China conseguia elevar o nível de renda e consumo de sua população.

Entretanto, em 1978 a capacidade de consumo ainda estava limitada pela baixíssima renda média per capita de 175 yuans. O salto de 27,7% nessa capacidade, entre 1978 e 1980, mesmo ainda restrita a uma renda camponesa de 168 yuans e urbana de 477 yuans, foi a primeira indicação de que os reajustamentos iniciados em 1978 poderiam dar certo. O salto ocorrido entre 1980 e 1997, quando a renda dos habitantes rurais se elevou para 2.090 yuans e a da população urbana para 5.160 yuans, foi a comprovação de que era possível combinar crescimento com distribuição crescente da renda.

A elevação da renda e do consumo tem se refletido nas mudanças ocorridas na estrutura de consumo. Se nos anos anteriores a 1949 o consumo cingia-se à comida, durante os 30 primeiros anos da Nova China os gastos destinaram-se à comida, vestuário e artigos de uso corrente, em parte pela oferta reduzida da produção do país. Em 1980 a percentagem do consumo com alimentos mantinha-se idêntica à de 1957 – 58,4% – e os três grandes objetos da família ainda eram o relógio, a bicicleta e a máquina de costura.

Em 1997, porém, as despesas alimentares baixaram para 46,4% e os três grandes objetos familiares passaram a ser a geladeira, a máquina de lavar e o televisor. Os gastos dos camponeses com moradia se elevaram de 3,2% em 1978 para 13,9% em 1995, em virtude da febre de construções habitacionais nas zonas rurais, com a introdução de água encanada, gás e aquecimento.  A monotonia da túnica Mao e da sapatilha de pano foi substituida por uma imensa variedade de roupas e sapatos. A isso a imprensa ocidental chama de consumismo, prova de que a China teria retornado ao capitalismo, uma situação em que, paradoxalmente, nunca estivera.

Um dos aspectos significativos das mudanças no padrão de vida chinês está na redução dos contingentes populacionais que vivem abaixo da linha da pobreza. Em 1978 eram 250 milhões de pessoas. Em 1998 ainda restavam 42 milhões nessa situação, mas há o empenho de que, no ano 2000, todas estejam acima daquela linha.

Assim, se estamos longe de ter um quadro de igualitarismo, também há uma imensa distância em comparação com o crescimento da pobreza e das disparidades de renda dos países capitalistas. Na China, persistem as diferenças de renda, mas elas raramente ultrapassam a relação 1 para 10. A tendência predominante é de enriquecimento desigual, mas num processo de ondas, de modo que a médio e longo prazos haja um encurtamento crescente entre as ondas de vanguarda e as de retaguarda.

Em síntese, a China não só aumentou consideravelmente sua capacidade de produzir máquinas produtoras de novas máquinas e equipamentos, os chamados bens de capital, como ampliou de forma consistente sua capacidade de produzir os bens de consumo corrente e de consumo durável para atender a uma população de crescente poder aquisitivo. O consumismo chinês pode ser evidente ao se andar pelas ruas das cidades chinesas, mas há também uma persistente elevação da poupança popular, hoje estimada em mais de 7 trilhões de yuans (quase um trillhão de dólares).

Não há, pois, exagero em admitir que, por volta de 2010, cerca 1,3 bilhão de chineses estejam vivendo como classe média, um mercado de massa inigualável. Pode ser a demonstração de que a utilização de mecanismos de mercado e do capitalismo, sob o controle e a direção socialistas, é indispensável para construir a fase primária do socialismo nas condições chinesas. Mas pode também demonstrar que, sem socialismo, aqueles mecanismos teriam criado o caos ao estilo russo, ou brasileiro.

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