2006: entre a tragédia e a esperança

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | 2006: entre a tragédia e a esperança, n. 481, 07 jan. 2006.

 

 

Entre 2001 e 2002 conformou-se um cenário jamais visto na história brasileira. As classes dominantes apresentaram um crescente quadro de divisão. De tal modo que a candidatura Lula foi se firmando como a opção para os setores burgueses que viam no crescimento econômico a saída para a quebradeira imposta pela política neoliberal de FHC e companhia.

As classes médias, por seu lado, permaneciam divididas, mas sua maior parte tendia cada vez mais para o voto em Lula. As camadas mais pobres, que até então vinham se negando a votar num igual, mudavam de atitude. Numa verdadeira revolução cultural, fluíam em direção ao candidato do PT. E este partido, apesar das divergências internas sobre o projeto de um governo Lula, mantinha-se unido no apoio à candidatura de sua principal liderança.

Assim, mesmo num ambiente de pouca mobilização popular, e sem que fossem denunciados como deveriam os casos de corrupção, compra de votos e irregularidades praticadas pelo tucanato-pefelista, configurou-se um cenário impensável não só para a direita, mas também para boa parte da esquerda: um operário e um partido socialista, guindados ao governo, dentro das regras liberais estabelecidas para impedir tal fenômeno.

As tendências presentes em 2005, ao contrário do que começou a ocorrer em 2001, e se firmou em 2002, estão embaralhadas. A burguesia permanece dividida, mas procura unificar-se em torno de um projeto próprio, principalmente pela frustração com o crescimento econômico medíocre. As classes médias não se conformam de suportar o peso principal da política que transferiu parte de sua renda para pagar aos banqueiros e reduzir a pobreza. Os mais pobres, por seu turno, embora tenham sido beneficiados pelas políticas sociais, sofrem pressão constante para desacreditar da eficácia dessas políticas. E, no PT, as divergências tornaram-se muito agudas, com expulsões e desligamentos.

Para piorar, a direita desdenhou a transição civilizada de 2003, que impediu que fossem investigados os malfeitos do período FHC. Aproveitando-se de irregularidades, corrupção e caixa dois praticados por dirigentes do PT e de partidos aliados, o tucanato-pefelista lançou mão de CPIs, e não deixa o país sair da crise política. Desencadeou uma persistente ofensiva para desmoralizar a história ética petista, destruir o PT e derrubar, ou sangrar até o final, o governo Lula. E, numa ação conjugada com o aparato de Estado ainda sob sua influência, faz tudo que é possível para imobilizar o governo e impedir que implemente qualquer projeto relacionado ao desenvolvimento.

Paradoxalmente, os principais dirigentes do campo majoritário que dominava o PT, e ditava a política e os métodos que conduziram à crise, negam-se até agora a assumir suas responsabilidades, fazer autocrítica, e afastar-se de seus postos e mandatos. Com isso, mesmo parcialmente derrotados nas eleições partidárias, ao invés de contribuírem para salvar o partido e o governo, e debelar a crise, a alimentam continuamente. E impedem que o PT e o governo recuperem sua credibilidade e tenham condições de tomar a iniciativa política e passar à ofensiva.

Em outras palavras, entramos em 2006 marchando para um cenário de tragédia. Apesar do que supõem os que abandonaram o petismo e o tomam como inimigo, uma derrota do PT e de Lula nas próximas eleições será uma derrota de toda a esquerda. É evidente que ainda há tempo para o governo executar os projetos de infra-estrutura que estão paralisados, elevar os investimentos para 25% do PIB, alcançar um crescimento de 5% a 7%, criar 3 a 5 novos milhões de postos de trabalho, aprofundar a redistribuição de renda e introduzir melhorias visíveis na educação e na saúde, revertendo em parte a marcha desse cenário.

Para isso, não é preciso produzir inflação, nem fazer populismo. Basta combater a inflação pelo aumento da oferta, deixando de exagerar no superávit primário, rebaixando os juros a um nível civilizado, executando políticas agrícolas e industriais claras e democratizando a propriedade, através do acesso ágil à terra e ao crédito, além de reduzir os tributos e travas burocráticos, que impedem a disseminação da economia familiar e das micro e pequenas empresa rurais e urbanas. Se isso será feito, no todo ou em parte, até o segundo trimestre saberemos com certeza. E poderemos ter alguma idéia sobre o que deve ocorrer na disputa entre a tragédia e a esperança.

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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