2005: entre o drama e a tragédia

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | 2005: entre o drama e a tragédia, n. 480, 24 dez. 2005.

 

 

As dificuldades do governo Lula e do PT, em particular aquelas enfrentadas durante 2005, levaram alguns a supor não só que ambos traíram a esperança de mudanças, mas também que faliu a estratégia de conquistas eleitorais e reformas do poder de Estado. Teria soado o momento de retomar a estratégia de ruptura.

É certo que o Estado brasileiro foi estruturado para servir às classes detentoras, primeiro de terras e bens mercantis, depois de capitais, e não às classes populares. Também é plausível supor que, em algum momento da história brasileira, para construir uma sociedade de novo tipo, democrático-popular ou socialista, será indispensável desmontar a atual máquina estatal e construir uma nova.

Por outro lado, não se pode desprezar a experiência histórica a respeito das condições indispensáveis para a ruptura do poder. Primeiro, é preciso que os milhões de brasileiros oprimidos demonstrem, em manifestações efetivas, cabais e insofismáveis, que não querem mais viver como até então. Segundo, também é preciso que os que têm o poder sob seu domínio demonstrem que se tornaram incapazes de dominá-lo como até então.

Assim, embora em 2005 o desejo de ruptura tenha ressurgido na mente de alguns, não há qualquer demonstração efetiva de que os oprimidos tenham se cansado, em definitivo, da vida que levam. Nem que as classes dominantes tenham se tornado incapazes de exercer o seu domínio. Nessas condições, a adoção da estratégia de ruptura ficará restrita a pequenos grupos, por mais dedicados que sejam.

Na história brasileira, fracassaram todas as tentativas heróicas de pequenos grupos, que pensaram substituir ou arrastar as grandes massas do povo na luta por sua libertação. Os comunistas e socialistas já deveriam ter aprendido, com elas, que a educação política, através da prática de luta, é a única universidade que as grandes massas do povo podem efetivamente cursar. Talvez, por isso, essas massas teimem em experimentar a estratégia de participação eleitoral e conquista de parcelas do poder de Estado, como parte de sua educação. O que exige dos comunistas e socialistas táticas que levem em conta os níveis de consciência, de luta e mobilização populares, a correlação de forças, as divisões no seio dos inimigos, as alianças que isso permite e a necessidade de acumular forças.

É no contexto dessas exigências reais, presentes no país desde 2001, que a ação das forças políticas pode ser avaliada. Por isso, os erros mais graves, de direita, do Campo Majoritário, que dominou o PT nesse período, não consistiram em rebaixar os objetivos táticos, procurar as alianças com alguns inimigos secundários e acumular forças através de políticas sociais compensatórias. Consistiram em transformar os objetivos táticos rebaixados em objetivos estratégicos, confundir os objetivos e os métodos do PT com os objetivos e os métodos dos inimigos secundários aliados e não incorporar a suas políticas econômicas e sociais o elemento estratégico de recomposição da força social das classes trabalhadoras.

E os erros de “esquerda” mais graves, do PCB, PCO e PSTU, agora acompanhados pelo PSOL, não consistem em levantar a bandeira do socialismo como objetivo estratégico. Consistem em tomar o socialismo como objetivo tático imediato, recusar alianças formais com inimigos secundários, considerar Lula e o PT como inimigos principais e achar que podem, por seus discursos e seu exemplo, mobilizar as grandes massas populares.

A estratégia do Campo Majoritário levou o PT a uma grande crise. Para sair dela, esse partido procura uma estratégia que tome a recomposição da força social dos trabalhadores como eixo. Mas pode não ter êxito, se continuar vacilando em acertar as contas com os dirigentes do PT incapazes de fazer autocrítica do que impuseram ao partido. Já a estratégia do PCB, PCO, PSTU e PSOL isola-os das grandes massas do povo. E, ao confundir os inimigos principais, na prática leva-os a aliar-se aos inimigos principais do povo brasileiro.

Em ambos os casos, 2005 termina como um drama que caminha para uma tragédia, porque a esquerda, dentro e fora do PT, não consegue implementar uma estratégia que aponte no rumo do socialismo – e, ao mesmo tempo, leve em conta as condições em que se trava a luta de classes e conduza a um verdadeiro acúmulo político de forças.

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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