2004: equilíbrio instável

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | 2004: equilíbrio instável, n. 429, 25 dez. 2004.

 

 

As previsões, no início do ano eleitoral de 2004, apontavam para uma feia derrota eleitoral do PT e do governo Lula, se, até meados do ano, não houvesse uma melhora substancial na perspectiva de crescimento econômico, redução do desemprego e poder de compra das classes médias e camadas populares.

Foram essas previsões que alimentaram as estratégias oposicionistas do PFL e PSDB, de federalização das campanhas, e, em parte, as ações desagregadoras de alguns setores aliados do Planalto, especialmente no PMDB e PPS. Tendo as frustrações das classes médias como principal suporte, esses segmentos políticos acreditaram que as possibilidades de retomada do crescimento, reiteradas mais de uma vez pelo governo, haviam se esgotado. Desse modo, seria quase impossível ao PT recuperar os setores de sua base social, que mostravam descontentamento com as políticas governamentais.

Aqueles segmentos desdenharam a possibilidade do equilíbrio instável do quadro internacional não descambar em crises, mantendo as condições favoráveis para o forte impulso exportador brasileiro. Desdenharam o fato de que, mantidas tais condições e tal impulso, a economia poderia sair de sua longa estagnação e grande ociosidade de sua capacidade instalada, e retomar uma curva ascendente, mesmo sem aumento significativo da taxa de investimentos. E desdenharam, principalmente, a esperança que as grandes camadas populares continuavam depositando em Lula e em seu governo, apesar das dificuldades e de erros e descaminhos.

Embora ainda agora permaneçam as querelas sobre se o PT e o governo ganharam ou perderam nas eleições de outubro de 2004, é difícil demonstrar que eles sofreram a derrota que era prevista pela oposição e por alguns setores da própria esquerda. É evidente que parcelas consideráveis das classes médias contribuíram para algumas vitórias oposicionistas e continuam descontentes. É verdade, também, que as eleições mostraram evidências de alguns deslocamentos à direita de setores da base social tradicional do PT e da esquerda.

Entretanto, não pode haver dúvidas de que, apesar disso, os sinais de crescimento econômico e redução relativa do desemprego, mesmo com queda da renda popular, serviram para recuperar parte das forças, que se encontravam em processo de deslocamento para o centro e a direita. Permitiram ao PT manter certo ritmo de crescimento eleitoral, mas não liquidaram a suposição de que o governo tende a enfrentar maiores dificuldades no futuro e que o equilíbrio permanece instável.

Talvez isso explique as tentativas atabalhoadas do ex-presidente FHC, em garantir para o tucanato a escolha da candidatura das oposições em 2006. Dê alguma luz sobre o lançamento prematuro da candidatura presidencial de César Maia, pelo PFL. E desnude as razões que levaram as alas oposicionistas do PMDB e do PPS a romperem com o governo e ter candidatos próprios à Presidência, em 2006.

Em tais condições, se alguém pensar que as notícias da retomada da popularidade de Lula e do governo podem apaziguar os ânimos e, em proveito da governabilidade, levar a um bom acordo com a oposição, em 2005, talvez esteja labutando em erro.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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