1998: sem saudades

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | 1998: sem saudades, n. 124, 08 jan. 1999.

 

 

1998 não vai deixar saudades. Será lembrado como o ano em que a liquidação do parque produtivo brasileiro alcançou tal amplitude, que até a FIESP resolveu fazer passeata de protesto. Ou em que a alienação do patrimônio público chegou a tal grau de desfaçatez, que os blocos que detêm o poder engalfinharam-se pelo que ainda resta do espólio.

1998 foi o ano em que o domínio das corporações multinacionais se tornou tão predominante, que até grandes empresários, tradicionalmente associados ao capital estrangeiro, resolveram aparecer como nacionalistas. E em que a concentração de riqueza, em contraste com o empobrecimento geral, o desemprego e o aumento da miséria, tornou-se tão absurda que até o Banco Mundial vislumbrou uma situação socialmente explosiva.

1998 foi o ano em que o plano real mostrou finalmente a que veio, expondo suas inconsistências e fragilidades para enfrentar a crise do capitalismo e solucionar os problemas estruturais da sociedade brasileira. O ano em que, para escapar da armadilha do endividamento que ele próprio montou, o governo teve que ajoelhar-se ante o FMI e entrar numa armadilha ainda maior.

1998 foi também o ano em que a cultura brasileira viu-se afogada na mediocridade dos modismos importados e do mundo-cão dos monopolizados meios de comunicação de massa. Foi o ano em que as mistificações sobre a excelência absoluta da inflação contida, das privatizações de sucesso, dos ajustes miraculosos e das reformas modernizantes bombardearam como nunca os brasileiros, encobrindo a realidade do desemprego generalizado, da inadimplência epidêmica, das negociatas privatistas, grampeadas e não-grampeadas, da perda do poder aquisitivo da população de baixa a média renda, da desnacionalização global e da crescente imposição de um autoritarismo mascarado.

1998 foi mais um ano em que o movimento popular se mostrou apático, perdendo-se em propostas que priorizavam a salvação do capital como meio de salvar-se a si próprio. Foi um ano em que a direita e o centro políticos, unificados em torno de FHC e livres das pressões dos movimentos sociais, usaram e abusaram do fisiologismo nas relações com o governo, aproveitando-se da transformação do Estado em simples zelador do mercado e agente desfigurado de assistencialismo social.

1998 foi o ano em que FHC reelegeu-se através do emprego abusivo da máquina pública, dos monopólios de comunicação e da banca internacional. E em que a esquerda, embora em condições favoráveis para disputar a presidência da república, acreditou mais na mediação midiática do que na mobilização popular; mais no discurso programático para todos do que no discurso aos corações, mentes, estômagos e bolsos dos assalariados, dos desempregados, dos proletarizados, dos endividados e dos quebrados; e, mais na força das propostas, concessões e abordagem civilizada, como meio de conquista dos empresários prejudicados, do que na força da mobilização e da pressão populares.

Apesar disso tudo, 1998 foi o ano em que a realidade começou a romper a cortina mistificadora da publicidade oficial e oficiosa. Em que a burguesia, não só a que quebrou, mas também a que disputa com os conglomerados estrangeiros o domínio do país, votou em FHC por falta de alternativa, mas já buscando outras opções a ele e às suas políticas.

1998 foi ainda o ano em que crescentes camadas de trabalhadores, marginalizados e classes médias começaram a mudar seu humor em relação a FHC e ao plano real, quase descambando para a indignação geral quando o presidente, além da omissão frente às calamidades que assolaram populações do Norte e do Nordeste, vocalizou seu desdém pelos aposentados. E foi o ano em que, por falta de opções claras e firmes a FHC, essa maioria popular dispersou seu voto entre Lula, abstenções, nulos e brancos e Ciro Gomes.

1998 foi, assim, o ano em que sob o mar desestruturante de FHC e Cia. Ltda., começaram a tornar-se mais audíveis os ruídos do maremoto econômico, social e político que está se formando. A direita os ouve, mas não acredita na força e na capacidade popular, embora sempre procure tirar proveito de qualquer onda. FHC e sua equipe têm ouvidos tampados, ou fingem não ouvi-los, talvez acreditando na força de sua sabedoria acadêmica para dissolver e evitar o cataclisma. E a esquerda fragmenta-se na discussão sobre o diapasão dos ruídos e sobre a conveniência ou não de permitir que o maremoto ocorra, como se isso dependesse de seu voluntarismo.

Como dissemos, 1998 não deixa saudades. Mas, no futuro, certamente será lembrado como o ano em que as coisas começaram a mudar, apesar dos que se esforçaram para introduzir ética no capitalismo brasileiro e jogaram bóias de salvação a FHC, em lugar de deixá-lo debater-se em suas próprias perversidades.

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