Tudo bem, mas…

Carta Maior

WPO | ART | CMA |Tudo bem, mas…; jul. 1997.

 

 

O Real completou três anos e, mais uma vez, o governo comemorou com foguetório. Com certa razão: manter a inflação em torno de 1% ao mês pode ser considerada uma vitória. Entretanto, extrair daí a idéia de que tudo o mais vai bem já é diferente.

Na realidade as projeções para 1997, mantidas as atuais condições, não são das melhores. O déficit da União será, pelo menos, 3% do PIB; os saldos negativos na balança comercial e nas contas externas podem ultrapassar, respectivamente, 12 bilhões e 36 bilhões de dólares.

O governo pode alegar o ingresso de muitos investimentos externos, permitindo manter reservas elevadas (59 bilhões de dólares). Só deveria acrescentar que cerca de 2/3 dessas reservas são smart money, dinheiro esperto capaz de fugir a qualquer tremida, com a velocidade da luz.

Por isso mesmo, os juros deverão manter-se altos, para atrair capitais externos, elevando a dívida externa do Brasil a mais de 180 bilhões de dólares e a dívida interna a 150 bilhões de reais, algo em torno de 16% do PIB.

O senso-comum diria que a melhor maneira de manter a inflação baixa seria acelerar as atividades econômicas e intensificar as exportações. Em tese, o governo até concorda. Na prática, as taxas de investimento devem manter-se em 17%, uma das mais baixas do mundo, o crescimento não deve ultrapassar os 3,5%, e as exportações aumentarão num rítmo inferior ao das importações.

Isto tudo porque, para evitar qualquer perigo de desvalorização da moeda, como está acontecendo na Tailândia e na República Checa, o governo prefere apertar o cinto do povão e das empresas. Suas medidas de política econômica levam a um aperto recessivo maior ainda, com forte contenção do crédito e das importações, e com a adoção de outras ferramentas contracionistas.

O governo segura qualquer tentativa de aquecimento das atividades econômicas, numa demonstração de que considera o crescimento um mal ao Brasil. que deve ser evitado. Se isso faz com que a inadimplência e o desemprego permaneçam causando estragos, é o custo que muitos devem pagar pela estabilidade da moeda.

Apesar disso, o presidente parece acreditar piamente que todos estão felizes em ter a inflação controlada e suportarão qualquer sacrifício, mesmo vendo a diferença com que ele privilegia bancos e multinacionais. Será?

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