Mais mudanças

Carta Maior

WPO | ART | CMA |Mais mudanças; mai. 1997.

 

 

É difícil avaliar todas as consequências das manifestações de Brasília, dirigidas pelos Sem-Terra. Mas elas, como as manifestações metalúrgicas do ABC, em 1978-79, também parecem catalizar os descontentamentos existentes.

Não se pode negar ao governo empenho em isolar o MST. Apesar de tudo, porém, este tomou corpo e ganhou apoio nacional e internacional. E chegou a um ponto impensável: assumiu a liderança da oposição.

Este é um dos paradoxos fascinantes da situação brasileira. A reforma agrária torna-se irresistível no momento em que a população rural é, proporcionalmente, a menor de toda a história brasileira. Isso porque se tornou a esperança da população urbana para minorar o desemprego, evitar o inchamento das cidades, baratear os alimentos e diminuir os custos sociais, à medida que o desemprego, a inadimplência e outros problemas agravaram-se, a despeito das promessas do Real.

Nessas condições, o MST adotou uma estratégia inteligente ao se transformar em porta-voz, não somente dos Sem-Terra, mas do descontentamento nacional. A marcha a Brasília pode significar, então, que o governo perdeu a iniciativa quanto à reforma agrária e corre o risco de perdê-la nos demais terrenos, paralisado que está pela CPI dos precatórios, o caso do extra-teto e o desgaste do auxílio aos bancos.

Por fim, já em campanha eleitoral, FHC declarou que as reformas constitucionais jamais foram fundamentais para a sustentação do Real e que não interfere nas decisões da equipe econômica. Com essa, até um espírito menos crítico pode concluir que, ou o presidente está mentindo, ou ele não comanda o governo.

O problema é que suas alternativas afunilaram-se, embora a situação exija modificações urgentes. A política econômica apresenta desencontros crescentes; o esgarçamento social parece um abismo insondável; a maioria parlamentar de quatro quintos é um saco de gatos insaciáveis. Não bastasse isso, o movimento social entrou em cena.

Os partidos vão ter que correr atrás do MST para não perder seu espaço de intérpretes dos segmentos sociais. Estes, despertos pelas ocupações, marchas e cantos dos Sem-Terra, da apatia em que se encontravam, vão forçar ajustes que lhes sejam favoráveis. Modificaram-se, assim, as variáveis que conformam os cenários políticos e, por qualquer ângulo que se olhe, há mudanças à vista.

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