Cada um por si

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WPO | ART | CON | Cada um por si; fev. 2001.

 

 

Encerrada a batalha pelas mesas da Câmara e do Senado, sobrou a divisão do bloco no poder e o acirramento da disputa dentro dele. Apesar disso, os otimistas ainda dizem que o presidente saiu reforçado, com aliados fiéis à frente do Congresso e ACM isolado. Essa interpretação se mantém, paradoxalmente, mesmo após o pipocar de denúncias de corrupção trazidas à baila por ACM e, em certa medida, confirmadas pelas decisões referentes à Sudam, atingindo o grupo Barbalho. Ainda acham que ACM teria dado um tiro no pé e se isolado completamente, tudo por vaidade e inconformidade com a derrota.

FHC continua agindo como se essa interpretação fosse verdadeira. Com uma nota infantil, demitiu dois dos ministros mais afinados com sua política, pelo fato de haverem sido indicados por ACM, tenta implementar um novo plano de governo, esforça-se para adiar ao máximo a disputa sucessória, mesmo dentro do PSDB, e procura credenciar-se para comandar a sucessão no momento que achar mais conveniente. Continua olhando a realidade através de sua visão virtual, que só enxerga o azul e o rosa.

ACM pode ser vaidoso, mas sempre teve uma sagacidade que prima pelo realismo político. Foi o que o levou a romper com a ditadura militar, num entrevero com o então ministro brigadeiro Délio Jardim de Matos. E que o tornou um dos principais articuladores da candidatura FHC, em 1994, ao enxergar que o centro e a direita, para vencerem a esquerda, precisavam um candidato aberto ao projeto liberal, mas de paramentos esquerdistas. Foi ainda o que o levou a tornar-se, há pouco, um cruzado contra a corrupção e a pobreza. ACM sabe, como poucos, desembarcar no momento certo de barcos que começam a afundar e pegar os salva-vidas que lhe permitam manter-se à tona.

ACM já tinha escolhido os salva-vidas  –  a luta contra a corrupção e a pobreza  –  e esperava o momento de saltar. Ninguém duvide que ele tenha armado o circo da conversa com os procuradores para o rompimento definitivo com o governo. Na imagem popular, não será ele que terá que provar a corrupção no governo, é o governo que terá que demonstrar que não é corrupto. Coisa que parece impossível, por FHC opor-se a qualquer CPI para investigar as denúncias que podem envolver o Planalto. De bandeja, ACM também sinalizou para a direita que vai bater no PT e não planeja aliar-se a esse partido.

Conclusões preliminares: temos um novo candidato potencial a presidente, com perspectivas de correr por fora se o PFL não entender o que está em jogo. Suas  principais bandeiras são a luta contra a corrupção e contra a pobreza, e o alvo principal o governo FHC. O PMDB, por seu turno, montou-se para arrancar a seiva e o tutano do governo, enquanto se prepara para disputar 2002, tendo o governador de Minas como candidato a presidente. No mínimo, está fadado a um racha se uma parte resolver ficar fiel a FHC,  quando Itamar considerar que a aliança do partido com o governo está prejudicando sua candidatura.

Sem Covas, o PSDB não está imune a uma situação idêntica à da Arena no final do regime militar, podendo fragmentar-se à medida que FHC consolidar sua imagem de governante sem poder de mando. O fiasco do novo plano de governo, mais do que requentado e sem qualquer apelo popular, é um indício forte da impotência do presidente diante dos acontecimentos e das dificuldades que enfrenta para retomar a iniciativa política.

Os cenários que restam são os de intensa movimentação das forças políticas em função das disputas de 2002. ACM tenta roubar as bandeiras do PT e da esquerda e construir uma alternativa à Lampedusa, onde se muda tudo sem nada mudar. Pode tentar construir sua própria candidatura, como aliar-se a Ciro Gomes, Jereissati ou Itamar. Este, por seu turno, já se convenceu, junto com Brizola, que a aliança com o PT não será viável, e ambos procuram montar a candidatura de centro-esquerda, mesmo que para isso sejam obrigados a se aliar à banda podre do PMDB.

Sozinho, o PSDB vacila entre Serra e Jereissati, mas pode ver-se compelido a apoiar um candidato de outro partido como cabeça de chapa, enquanto o PT, saindo da perplexidade com a situação tão favorável a seus planos, e desconfiado de tanta esmola, espera o quadro ficar nítido. O que pode não acontecer tão rapidamente, a não ser que a situação social também entre em turbulência e se embaralhe com os cenários políticos, cada vez mais parecidos com os de 1989. Numa briga de cada um por si, só FHC pensa que pode ser o juiz.

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