As eleições e o futuro de FHC

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WPO | ART | CON | As eleições e o futuro de FHC; set. 2000.

 

 

O governo esforçou-se para evitar surpresas nas eleições, cujos resultados podiam modificar a conjuntura e ameaçar seus planos para 2002. FHC não esquecia que começou 2000 sob vaias. Prometeu, então, prioridade às questões sociais e a retomada do crescimento. Mas deu mais desemprego, estagnação e juros elevados, tendo que colher o ressurgimento da questão salarial, greves, reclamações contra os serviços privatizados e a desnacionalização da economia, e uma violência urbana transformada em guerra civil não declarada.

O país debateu-se num salve-se quem puder pela sobrevivência, atingindo tanto pobres e desvalidos, quanto setores médios. A instabilidade tornou-se estrutural, cristalizando-se em dissensões no poder e nas manifestações de descontentamento popular.

Diante disso, FHC procurou vestir as vestes sociais da terceira via e unir PSDB-PMDB como núcleo de sua sustentação, para eleger a maioria dos prefeitos em 2000, entregar a esse núcleo a presidência do Congresso em 2001, e manter-se no comando para decidir os rumos de 2002. O grande lance publicitário dos 500 anos consolidaria essa estratégia. Mas enganou-se.

Primeiro, arcou com o ônus do salário mínimo. Segundo, os Outros 500 anos afundaram seus planos em Porto Seguro. Terceiro, seus dias amargos prosseguiram com as greves e o aumento da insatisfação popular. A tudo tentou enfrentar com a repressão, desqualificando as manifestações, criminalizando os Sem-Terra, usando a Lei de Segurança Nacional e tentando encurralar o PT e a esquerda.

Eliminaria, porém, os únicos capazes de representar as insatisfações sociais, perigando criar uma crise institucional e empurrar para as zonas rurais a guerra civil larvar já presente nas periferias urbanas. O sinal patético de que recuara foram os queixumes do ministro Malan a respeito da insensibilidade social das elites, embora o próprio Malan e FHC sejam os principais símbolos dessa insensibilidade.

As mobilizações sociais desorientaram o Planalto e aumentaram seus índices de impopularidade e rejeição. A trégua posterior não reduziu a instabilidade, que regurgitou com os ataques diretos, por gente do próprio sistema, às negociatas de Eduardo Jorge. E as mesmas forças que armaram na sombra esses ataques, arriscando deixar exposto o núcleo central de poder, deram ao presidente o ombro que precisava para evitar a CPI, colocando-o porém sob tutela e fazendo minguar as expectativas do PSDB.

As forças conservadoras temiam o que as ruas e as urnas reservavam. Com os problemas sociais e o desemprego no centro da agenda política, elas tinham que manter em mãos os instrumentos de poder mas, ao mesmo tempo, precisavam apresentar-se como oposição e esquerda, para conquistar apoio popular. Ao contrário de 1996, em que o apoio do governo federal era o mote de seus candidatos, na de 2000 fugiram disso como o diabo da cruz.

Desse modo, o esforço simultâneo para derrotar a esquerda, conquistar posições para 2002, desviar as camadas populares de seus problemas mais graves e manter-se no governo às custas dos demais aliados, transformou as disputas internas no poder em briga de foice em quarto escuro, até para o experiente PFL.

O sonho do PFL e do PMDB é um continuísmo no estilo mexicano, no qual o PSDB e FHC podem sair derrotados, mas por eles. Entretanto, à medida que o governo se viu obrigado a discutir a agenda real do país, a eleição federalizou-se, aumentando as chances da esquerda repetir 1988, com o perigo de 2002 ser no estilo de 1989.

Ao fazer jogo de cena com rebaixamento de juros, segurança, preços, ética para os altos escalões e crescimento, FHC procurou conter a esquerda, por um lado, e evitar a derrota de seu partido para os aliados, pelo outro. O ataque de Malan ao plebiscito da dívida externa apenas sinalizou que o governo perdera a iniciativa política.

O quadro eleitoral em São Paulo, Porto Alegre, Belém, Belo Horizonte e outras cidades indicava que a esquerda podia explorar a nova situação, discutir e apontar soluções para problemas como emprego, dívida externa e crescimento, catalizar o descontentamento e impor uma derrota às forças dominantes no terreno em que elas se achavam imbatíveis: o das eleições. Um futuro nada risonho, convenhamos, para um governo sem força, com seus tutores tendo que procurar uma alternativa para evitar nova derrota em 2002. A esta altura, este talvez seja o cenário indicado pelos resultados eleitorais. A conferir.

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