À beira de um ataque de nervos

Conexão

WPO | ART | CON | À beira de um ataque de nervos; dez. 2000.

 

 

O governo brasileiro assegura que os fundamentos econômicos vão bem, que o efeito Argentina não chegará aqui, que a educação vai às mil maravilhas, que o número de pobres decresceu e que as privatizações dão ágios lucrativos. Na prática, a história segue seu curso, preparando armadilhas e fazendo ironias impensáveis, como as das eleições  norte-americanas, embora no Brasil os cenários deste final de ano fossem previsíveis.

No início de 2000 havia sinais de que o ano repetiria o fiasco de 1999. O câmbio ia flutuar demais, a moeda desvalorizar-se e os juros se manterem altos; aumentaria a febre para elevar tributos, em vista dos superávits exigidos pelo FMI, e aumentariam de intensidade o risco inflacionário, a quebra de empresas e o desemprego. Nessas condições, deveriam aumentar a insatisfação social e a instabilidade política, principalmente tendo-se em conta de que em 2000 haveria um ensaio eleitoral para 2002.

As crises na máquina governamental, nos meios empresariais e na base parlamentar do governo, de início de ano, eram apenas amostras das turbulências em gestação. Era até possível que a economia crescesse, mas as incertezas levavam os partidos do governo a realizarem reajustes estratégicos para qualquer cenário. Era uma hipótese milagrosa que a santa aliança conservadora fosse refeita. O mais provável é que FHC fosse abandonado à própria sorte, e os partidos de centro e de direita se jogassem numa disputa frenética por posições no poder e por  uma candidatura própria para 2002. Este é justamente o cenário com que nos defrontamos hoje.

Por mais que a aliança conservadora permaneça formalmente, na prática ela descambou numa guerra, cujos interesses reais são escamoteados por discrepâncias aparentemente pessoais. A aliança terminou, embora ainda possa ser mantida no terreno da formalidade. O governo e seus aliados perderam a iniciativa política, apesar das oposições ainda estarem dispersas e surpresas com a própria situação. Na verdade, elas venceram em 2000 menos por seus méritos estratégicos e táticos do que pelo referencial histórico oposicionista do PT e da esquerda. Foram o poste que o eleitorado enxergou para depositar suas esperanças e demonstrar sua ira.

O deslocamento do eleitorado para a esquerda levou o PT e a esquerda a adotarem uma postura mais contestatória a FHC. E, a não ser que ocorra uma guinada nas políticas do governo, nada indica que aquela propensão popular se modifique e abra campo para composições moderadas. Não por acaso, as supostas “maluquices” de Itamar Franco só lhe têm rendido dividendos e ele agora sai na frente exigindo uma Assembléia Constituinte. Sabe que qualquer mudança séria nas políticas governamentais baterá de frente com o arcabouço jurídico montado nestes últimos dez anos, que terá de ser reformulado.

Assim, da mesma forma que em outros países da América Latina, há indícios de que o ciclo iniciado com Collor e continuado por FHC chega ao fim. A vitória do PT e das esquerdas nas eleições, a divisão no interior do bloco governista, as dificuldades de FHC para realizar novas reformas e a crise econômico-social, são os principais. O povo brasileiro ainda não se manifestou ao estilo dos equatorianos, peruanos, bolivianos e argentinos, mas, por via das dúvidas, os partidos governistas procuram adaptar-se e algumas de suas lideranças tentam transformar-se em paladinos da erradicação da pobreza. Até FHC, não se sabe por sarcasmo ou cinismo, tornou-se recentemente garoto propaganda do Programa Bolsa-Escola.

Nessas condições, a esquerda se verá compelida a colocar na ordem do dia a convocação de uma Assembléia Constituinte. Se não o fizer, pode deixá-la apenas com Itamar, proporcionando-lhe uma grande dianteira na corrida presidencial, tanto maior quanto mais a bandeira da Constituinte for emoldurada por propostas de recuperação da indústria e da agricultura, reforma agrária, mercado de massa, erradicação da pobreza, soberania nacional, reimplantação de setores estratégicos estatais na economia e participação democrática.

À medida que a esquerda assumir essas bandeiras em conjunto e decidir realizar mobilizações massivas, como fez nas Diretas, nas eleições de 1989, no Fora Collor e, em certa medida, no recente Plebiscito sobre a Dívida Externa, estará atraindo o centro, colocando os conservadores à beira de um ataque de nervos e preparando-se para vencer em 2002 com uma real mobilização popular.

Você pode gostar...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *