2001: apenas meio do caminho

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WPO | ART | CON | 2001: apenas meio do caminho; jan. 2001.

 

 

Chegamos ao novo milênio com heranças dos últimos anos do que findou e cenários que apontam, inevitavelmente, para a disputa dos parlamentos, governos estaduais e presidência da República em 2002. Apesar de todos dizerem que ainda não é hora de tratar desse assunto, seus movimentos políticos, desde a retardada atitude de FHC, mandando o presidente da Petrobras recuar da intenção de mudar o nome da estatal, até a novela da disputa das presidências da Câmara e do Senado, giram em torno justamente desse assunto.

A escolha do candidato a presidente constitui uma das decisões mais importantes das manobras que visam 2002. Mas o nome não deve adaptar o programa, mas sim adaptar-se a ele. ACM entendeu isso perfeitamente quando, apesar de seu peso político e de suas ambições, decidiu-se pela escolha de FHC, em 94, como candidato do programa neoliberal. E suas manobras em torno de Tasso Jereissati, mostram que o soba baiano não desaprendeu a lição. Para derrotar a esquerda em crescimento, somente alguém que se passe ou possa ser vestido e/ou vendido como tal. Diante disso, a não ser que queira se perder na pauta que o conservadorismo procura lhe impor (estabilidade, ajuste fiscal, pagamento da dívida pública, manutenção das privatizações e tranqüilidade aos investidores), a esquerda terá que construir um programa, cujos eixos dificilmente deixem de passar pela recuperação da indústria e da agricultura, reforma agrária, mercado interno de massa, erradicação da miséria e da pobreza, reconquista da soberania nacional, reimplantação de setores estatais estratégicos e participação democrática da população nas decisões governamentais.

Certamente, a esquerda terá que se preocupar com estabilidade, algum tipo de ajuste fiscal, dívida pública, privatizações e investimentos externos. Mas, se quiser estabilidade com os mesmos mecanismos de Collor e FHC, cometerá haraquiri. Se adotar um ajuste com a cláusula do sistema financeiro em detrimento da cláusula social, será considerada igual à aliança conservadora. Se propuser o pagamento da dívida nos termos atuais (declarar a moratória não depende dela, como aliás bem sabem Sarney e Mailson da Nóbrega), será acusada de levar o país ao abismo. Se aceitar a não retomada das estatais privatizadas, mas não realizar auditorias sobre as negociatas que denunciou, e não repactuar os termos contratuais que permitem às transnacionais decidir os rumos do país, será tomada como parte da política dominante. Finalmente, se propuser a atração de investimentos externos para desenvolver as forças produtivas do país sem contratos transparentes de mútuo benefício, fatalmente será comparada à direita entreguista.

Os brasileiros, descrentes de um governo que lhes prometeu o paraíso e lhes impingiu o purgatório e o inferno, querem reformas estruturais que dobrem a produção de alimentos, acabando com a miséria no campo; induzam o desenvolvimento industrial, recriando os setores estratégicos da economia nacional e tornando-os também instrumentos de desenvolvimento social; e, tomem a cláusula social como a primeira e fundamental, subordinando tudo à erradicação da miséria e da pobreza, à criação de um mercado interno de massas e à melhoria dos padrões de vida do povo.

Quase certamente será em torno desse programa que se travará a disputa de 2002. A direita troglodita o combaterá com populismo e com a mesma truculência que usou em 2000. A direita civilizada e o centro vestirão seu próprio plano neoliberal com os mantos desse programa, como em 1994 e 1998, dando-lhe ainda um toque populista.  Para a esquerda, a questão consistirá em saber diferenciar-se dos imitadores, criando um movimento político forte que simbolize o desejo de mudança, e em não se amedrontar com os ataques truculentos. Como fez a maioria de seus candidatos em 2000, não pode rebaixar seu tom da voz, nem seus propósitos.

É para um cenário desse tipo que convergem as tendências desatadas em 2000. Do mesmo modo que as projeções de 1988 apontaram para a disputa de 1989, as de 2000 apontam para 2002. O governo acredita que até lá seu programa estará consolidado e o país terá ingressado numa fase de desenvolvimento sustentado. A esquerda acredita que isso não acontecerá, pela própria natureza do programa neoliberal. Nessas condições, a disputa entre essas duas visões subordinará todos os cenários intermediários e desafios de 2001. A não ser que algum tsunami atinja nossas praias, é claro!

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